Projeto que desenvolve atividades teóricas e práticas dentro do curso de graduação em artes cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA / USP, durante o primeiro semestre de 2012. Participantes Alunos: Regulares do curso de graduação em Artes Cênicas. Professores: Alice K., Antonio Araújo, Cibele Forjaz, Zebba dal Farra, Giuliana Simões, Maria Lúcia Pupo, Silvia Fernandes. Estagiários em docência: Ana Júlia, Igor Almeida, Marcello Amalfi.
Textos: EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA INTERDISCIPLINAR e CORALIDADES E DISSENSO (EMENTA)
EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA INTERDISCIPLINAR
Convencidos dos benefícios de uma estratégia pedagógica integradora, os docentes do Departamento de Artes Cênicas propõem, para o primeiro semestre de 2012, três projetos interdisciplinares autônomos, que se imbricam e se apresentam ao final de cada mês. A iniciativa condiz com o Projeto Político Pedagógico, por estimular a “interdisciplinaridade”, “a experimentação e o risco”, buscando-se “a formação de um artista e educador presente no presente”. O momento atual exige reflexão e atuação propositiva, por parte dos atores da universidade - alunos, funcionários e docentes. A experiência pedagógica interdisciplinar visa a contribuir para este debate, segundo seus três eixos cardinais: “Formas do teatro político: agitprop, teatro jornal e performance política”, “Coralidades e Dissenso” e “Utopias e Manifestos”.
CORALIDADES E DISSENSO
O projeto se propõe a problematizar a questão das formas de ação coletiva, tanto no âmbito da universidade quanto na esfera das relações entre os cidadãos. Dentro dessa preocupação, pensamos trabalhar as noções de coro e coralidade em suas várias conformações, desde o coro como voz única dentro da cidade aos coros dialéticos, atravessados por contradições, chegando até os coros polifônicos, que funcionam menos como um todo uníssono do que como um conjunto de singularidades.
Entre as questões que gostaríamos de investigar ao longo do semestre destacamos: Em que medida a forma coral conseguiria materializar as aspirações e os atos coletivos da comunidade? Qual a função que vem sendo cumprida pelo coro na criação artística atual? A coralidade seria em si mesma um modo de criação polifônico, um dispositivo agenciador de trabalho compartilhado em sala de ensaio? A musicalidade continua sendo referência para a criação da intervenção coral? Ela seria sinônimo de indivisão, ou a harmonia que ela revela pode emergir da dissonância?
Nessa direção, a noção de dissenso de Jacques Rancière ressalta que esse “termo não busca simplesmente valorizar a diferença e o conflito sob suas diversas formas [...] o dissenso não é a diferença de sentimentos ou de maneiras de sentir que a política deveria respeitar” . Para ele, o dissenso seria “uma perturbação no sensível, uma modificação singular no que é dizível, visível, contável [...] um conflito sobre a constituição mesma do mundo comum”. Essa perturbação do sensível pode ser pensada para o filósofo francês a partir das palavras política e polícia:
O que se passa, com efeito, quando as forças da ordem são enviadas para reprimir uma manifestação política? O que se passa é uma contestação das propriedades e do uso de um lugar: uma contestação daquilo que é uma rua. Do ponto de vista da polícia, uma rua é um espaço de circulação. A manifestação, por sua vez, a transforma em espaço público, em espaço onde se tratam os assuntos da comunidade.
Do ponto de vista dos que enviam as forças da ordem, o espaço onde se tratam os assuntos da comunidade situa-se alhures: nos prédios públicos previstos para esse uso, com as pessoas destinadas a essa função. Assim o dissenso, antes de ser a oposição entre um governo e pessoas que o contestam, é um conflito sobre a própria configuração do sensível. Os manifestantes põem na rua um espetáculo e um assunto que não têm aí seu lugar. E, aos curiosos que vêem esse espetáculo, a polícia diz: “Vamos circular, não há nada para ver”. O dissenso tem assim por objeto o que chamo o recorte do sensível, a distribuição dos espaços privados e públicos, dos assuntos de que neles se trata ou não, e dos atores que têm ou não motivos de estar aí para deles se ocupar. Antes de ser um conflito de classes ou de partidos, a política é um conflito sobre a configuração de mundo sensível na qual podem aparecer atores e objetos desses conflitos.
Interessa-nos neste projeto fazer um cruzamento entre as questões do dissenso e a noção de coletivo concretizada por meio das diferentes formas de coralidade.
(enviados por Zebba, em 26/05/2012)
Assinar:
Postagens (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário